Arquivo para Outubro, 2007
“Mas nunca tinha fumado sozinha.”
Quinta frase, página 161, O Amor em tempos do cólera de Gabriel Garcia Marquez. E o engraçado é que foi nessa página que abandonei o livro…
Às vezes me espanto com a velocidade do ar
Em setembro, meu sobrinho completou dois anos. Eu acompanhei cada passo dele até hoje. E por isso é tão estranho pensar que, há dois anos atrás, aquele menininho que parece ter estado sempre ali, alegrando a casa, ouvindo musiquinha, pedindo para contar história e brincando de pega-pega, simplesmente não existia.
Passei 29 anos alheia ao fato de que esse menininho poderia estar ali e não estava. Há pouco descobri que ele foi ver a banda e queria ser baqueta para fazer banda. Ele me contou no dia. Eu vi as baquetas, tia, fazendo banda como o Gui…
a queda
“agora que é mais que tarde
é noite e nuvens cobrem
e não há horizonte algum
eu quero que o teto caia
e encubra o corpo
e me quebre a cara
eu quero que o teto caia
e rache o que não presta
não há vôo sem queda.”
Johnny C, dedicado a Walter Franco.
Sansão
Hoje vi a tristeza me afagando o coração
A despeito disso, eu vou passando a mão
Colocando matéria orgânica na fenda da depressão
E o que se vê é um jardim: astromélias floridas
No chão partido do Afeganistão
Da verdade
“Nem sempre o que se esconde atrás dos fatos é a verdade.
Nem sempre a verdade deve ser dita.
Porque de todo quando esta é revelada,
Nem mesmo quem a confessa acredita.”
Esses dias
“Esses dias eu encontrei com um homem sentado que tinha nas mãos um coração.
Eu olhei para ele. E ele sentado, comeu o coração.
Eu, então, perguntei: você gostou, meu amigo? Tem gosto bom?
É amargo. E eu gostei porque é amargo.
E porque era o meu coração.”
Janela para o pátio
Há um bom tempo que trabalho de janela para o pátio. Em fase de investimentos em planos, viagens, pastas e caderno, eu gosto de olhar para o muro branco, o marrom do banco, o verde e o vermelho-branco-vermelho do mosaico no chão.
De vez em quando, dou sorte. Um menino de dois anos transita entre as flores nos potes.
Vem brinca Bel! – E o passarinho faz do pátio seu bosque.
A casa adormecida
Eu acordei, quando a casa ainda dormia
A penumbra, no quarto fazia
Efeitos de sombra
Quase nada se via
O banheiro, o televisor, o guarda-roupa
Tudo se escondia
As janelas, sobre a cabeceira da cama, se batiam
Uma luz do outro lado, por entre as frestas insistia
Mas as telas de arame, rangendo, resistiam
Era impossível saber a hora certa, o dia
Seu corpo azul escuro na cama
nem se quer se movia
Na penumbra, a casa sumia
Amigo antigo
Esses dias, eu o reencontrei.
Amigo antigo de tanto tempo, quanto tempo?!
Feliz e saudoso, eu perguntei: E a família como vai?
O outro, olhar descrente, carcomido: Todos bem.
Passado a semana, despertei: morreram em um acidente.
Só vivera o amigo de quem nem o nome eu lembrei.
Madrugada
Sonho com creme, pedaços de gente ao ponto, à milaneza, ao dente. Acordo suando. Pingos de chuva batem na persiana, refrescando o quarto, o corpo, o cheiro …
Às vezes peno pelo que esqueço. Pedaços espessos fora do refrigerador.