Arquivo para Outubro 7, 2007
Madrugada
Sonho com creme, pedaços de gente ao ponto, à milaneza, ao dente. Acordo suando. Pingos de chuva batem na persiana, refrescando o quarto, o corpo, o cheiro …
Às vezes peno pelo que esqueço. Pedaços espessos fora do refrigerador.
Alto mar
Quando você deixa o mundo se virar
E vira a vida para o melhor que há
Então tudo pode ser
Deixa a estrada andar
E a poeira te batizar
Porque quando a poeira vira
Uma poesia também caminha
E então o caminho pode vir a dizer
Para onde foram as pessoas boas
Se estão perto ou longe
Do porão ou para a proa
Em alto mar o vento é música
E a poeira voa
Teu riso
Houve um momento de santo
Um dia de pranto
Um beijo de canto
Vê-se que a mágoa passa
Em passos suaves
Enchendo-nos de graça
Espera-me, que um dia amada
Vou levar-te de novo
Para ouvir os sinos na praça
E fazermos pirraça
Da nossa própria raça
Que coisa ti ver assim
Rindo, indo e vindo
Correndo o risco
De ser, um dia,
feliz sem mim
Da obstinação (para a Cris)
Salienta-se da terra
Aquilo que é poeira e dela
Coisas, obstinação
Assim como para o caminho
Havia a pedra
Para o solo partido
O vencido coração
Havia no meio
Pedaços de chão
Caquexia
Caquético, caralho,
cadê aquilo que estava aqui?!
Eu finjo que não vejo
Eu vejo o que não sinto
Eu sento no lado esquerdo
Eu erro o nome direito
Banalizo todo o sinal vermelho
Esqueço de pedir primeiro
Meu regime é de cativeiro
Eu minto o tempo inteiro
Nós dois
Você faz eu me vestir assim
Com o cinto, sem a calça
Uma alça da presilha
A camisa solta
O pé descalça
A sandália à toa
A vida em voltas
Revisa, assoa
Somos só nós dois
E muitas outras pessoas
Caixinha
Meu silêncio guarda o mundo
A bola perdida
Amoras roubadas
Bombinhas estaladas
Piadas mal contadas
Risadas no escuro
Estórias inventadas
Meu silêncio
É a música dentro da caixinha
Esperando que alguém dê corda
Da observação
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda a frio teu coração alheio
E verás que o que bate no teu peito
Só tu percebes, só tu podes dar jeito
Para a espinha entalada na garganta,
Come-se pão, bebe-se água
Para os sentimentos atravessados no peito
Dá-se um tempo
Desvia-se do vento
Perdoa-se por dentro
Ofício
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
Pior que este inumano existir enlatado
De baixo para cima, de cima para baixo
É a vida sem sina
Sem um sentido
Sem lado
Eu preciso reconstituir meus pedaços
Comprar muitas coisas no supermercado
Preencher o vazio, deste viver engomado
Vozes me dizem: – “ Eh, Tu, aí?!”
E me mandam escrever excrementos
Em papel refinado
A pipa no poste
A vida é um grito
Eu viro, reviro, eu vibro
Às vezes de um sopro
Recrio meu leito, meu peito, meu amo
Mentir é tão louco, tão pouco, tão oco
Às vezes de um soco, eu caio, eu fico torto
Retiro minhas trouxas, meu nome da lista
Eu pago à vista
No caminho para casa, a visto no poste
Uma pipa enrolada
A mercê da própria sorte
Pena que aqui não venta …
