Arquivo para Novembro, 2007

Santa Maria


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A gata Mia da Melina.

Desejo mio

Há duas semanas, eu pensava em fazer algo sobre o que me disseram um dia. Brincar com o que é sério, é mais sério do que se imagina. Um desejo desprovido de qualquer intenção é como um gato a procura um lugar para afiar as presas. Minha pele não é estofado, tão pouco madeira ou cascalho. Então, eu coloquei o desejo no papel. Circulei, dobrei, recordei, voltei, retomei e finalizei um barco, daqueles que quando se dobra errado, vira chapéu de “marcha soldado”. Soltei-o na vala, num dia de chuva fina. Mal dobrara a esquina, sumira. Há quem duvide, há quem acredita que o desejo dera ao barco vida. E pelos bueiros ele ainda transita. Ora mia, ora mio…

 

 

Globulos vermelhos

Par seria: dois blocos aglomerados
Mas como gente
Partículas
Glóbulos vermelhos e brancos
Com ameixa, misturados

Lambo teu queixo, seus eixos
Tudo que for adocicado…

 

Dia de cão

Somos todos em vão
Passageiros na contramão
Correndo para chegar
Ao fim da linha da estação

Sem nenhum trocado
Dinheiro, plástico ou latão
Só o ticket, o vale-refeição na mão

O dia é um daqueles nublados
Ônibus sacudindo, lotado
Horas chove, outras não
Uns molhados, outros segurando no cordão

Momento ingrato, BUSINA!
Cachorro atropelado, no ato
Todo mundo cai por cima

Eu viro enlatado, faleço
Meus órgãos são doados ainda frescos
E o cachorro ressuscitado, como apreço
É adotado por minha mulher e meu irmão

Aqui jaz, Gilberto, carteiro e amigo
Ressuscitado, cachorro, vira-lata e pulguento
Meus ossos são sua guarnição

Desamo

Descobri há pouco tempo, que ele se chamava Desamo.
Era um guerrilheiro bonito e destemido, perito em torturas,
maus-tratos e falsa soltura. Ele sabia camuflar-se, desarmar e matar
com tamanha rapidez que até hoje me espanto.
Eu me engano, mas não Desamo. Ele dormia na trincheira.

Um dia, não o viram mais. Um triste ano, foi sem Desamo.
Seu corpo despedaçado foi encontrado, juntado e queimado.
E porque nascera e vivera na trincheira,Desamo foi jogado lá.
Mas o vento, o vento o carregou. E Desamo virou passarinho.

Feito de poeira.

A poeira que roda e viaja com o vento até o fim dos tempos…* Nunu.*

Das tiras em quadrinhos

Hoje meu irmão recebeu uma carta do MEC, dizendo que ele havia sido sorteado para fazer uma prova no próximo domingo, daqui a dois dias. Este ano ele decidiu se formar. Não quer festa, não quer nada. Depois de seis anos pagando a faculdade, ele só quer se formar. Mas o sorteio do MEC decidiu que ele precisa fazer algo mais. Esse episódio me lembrou de quando fiz 18 anos e tive que tirar o título eleitoral. Nunca gostei muito dos deveres cívicos, principalmente daqueles que dizem que temos de fazê-los pelo futuro do país, quando os fazemos é pelo futuro dos políticos. E políticos eram para mim, figuras alegóricas, personagens das charges na Zero Hora.

Mas o que de pior poderia me acontecer, além de ter que subir e descer a lomba da Duque de Caxias algumas vezes? Se não havia solução, eu já me preparava para “gostar” daquilo. No mesmo dia em que recebi o título, li no jornal as tiras do “Laerte” e a piada era sobre um cara que se perguntava a mesma coisa, quando o carteiro chega com uma notificação do TRE. É, eu fui mesária naquele ano. Perdi o domingo e não tive feriado. Mas guardei a tira até os 22 anos, quando desisti dela por falta de espaço no caderno das coincidências e das piadas de humor negro que, a partir de então, comecei a colecionar.

Ainda hoje, em momentos de relativa paciência com a vida, motivada pelos desacontecimentos dos dias, à noite, eu escrevo sobre os carneirinhos, sobre nós e a cerca que às vezes nos separa deles. Muitos dizem que coincidências são apenas carneiros e jamais sentarão à mesa para tomar chá. Assim como os políticos com o futuro do Brasil. E a fumaça virtuosa do meu interminável cigarro.

Quando a merda vira adubo

esqueço os trechos
as brigas, os excessos
o drama vira grama

não rende grana
não vende verso