Arquivo para Amores
Alecrim
As pessoas não mudam
O que muda é nossa visão sobre elas
Algumas são mudas
Outras cravo e canela
Algumas são de cor única
outras mudam com a estação
Algumas são para os olhos saudades
Outras feito samba canção
No dia tal
Me deseje sorte, antes de seguir viagem
Ante que tudo vire sal e saudade
Antes que eu só escute o surdo
E que o tempo nos ensine a conviver com isso
As dores de amores, os assaltos e os surtos
Das sete ondinhas
Correi, rolai, correi _ ondas sonoras
ondas que voltam, marolas, carambolas
De um dia tenso, num pequeno instante. Eu crio uma história e sigo adiante.
Tudo que se desfaz aqui, renasce melhor mais adiante …
Serenata
“Vestiu-se à meia noite seu traje de domingo e tocou o solo debaixo do balcão de sua amada a valsa de amor que compusera para ela, que só eles dois conheciam, e que foi durante três anos o emblema de sua cumplicidade contrariada. Tocou-a murmurando a letra, o violino banhado em lágrimas e com uma inspiração tão intensa que os primeiros compassos começaram a ladrar os cachorros da rua, e em seguida os da cidade, mas depois se foram calando pouco a pouco graças ao feitiço da música, e a valsa terminou meio a um silêncio sobrenatural. O balcão não se abriu, nem ninguém assomou à rua.
…Quando guardou o violino na caixa e se afastou pelas ruas mortas não achava que ia embora na manhã seguinte, e sim que já tinha ido há muitos anos …”
Globulos vermelhos
Par seria: dois blocos aglomerados
Mas como gente
Partículas
Glóbulos vermelhos e brancos
Com ameixa, misturados
Lambo teu queixo, seus eixos
Tudo que for adocicado…
A casa adormecida
Eu acordei, quando a casa ainda dormia
A penumbra, no quarto fazia
Efeitos de sombra
Quase nada se via
O banheiro, o televisor, o guarda-roupa
Tudo se escondia
As janelas, sobre a cabeceira da cama, se batiam
Uma luz do outro lado, por entre as frestas insistia
Mas as telas de arame, rangendo, resistiam
Era impossível saber a hora certa, o dia
Seu corpo azul escuro na cama
nem se quer se movia
Na penumbra, a casa sumia
Teu riso
Houve um momento de santo
Um dia de pranto
Um beijo de canto
Vê-se que a mágoa passa
Em passos suaves
Enchendo-nos de graça
Espera-me, que um dia amada
Vou levar-te de novo
Para ouvir os sinos na praça
E fazermos pirraça
Da nossa própria raça
Que coisa ti ver assim
Rindo, indo e vindo
Correndo o risco
De ser, um dia,
feliz sem mim
Nós dois
Você faz eu me vestir assim
Com o cinto, sem a calça
Uma alça da presilha
A camisa solta
O pé descalça
A sandália à toa
A vida em voltas
Revisa, assoa
Somos só nós dois
E muitas outras pessoas
Dedos
Eu nunca disse que era flor
Muito menos, sininho, Cinderela,
Gata borralheira,
Contos de fadas que for
Se um dia você ouviu isso
Paroxismos de amor
Com certeza eu estava sonâmbulo
Mentindo que media a dor
E no sobe e desce,
No calor de todo esse desejo, amor,
Faltou luz no corredor
Foram esses os fatos
Pedaços de dedos
Sobre o teclado do elevador
Infarto
Já não desatino
Se eu finjo que vejo
Ou vejo fingido
O que é essencial ao coração
Esse teu não me afobe, não me afogue
Vê se foge e corre
Não me diga, não
Eu falo o que não sinto
Só para dizer que minto
E acordar contigo
Esse nosso pacto
De que estamos dando um tempo
Pras coisas do coração
Pra Lua – em 10 de maio.
Morastes por aqui, de certo
Bem perto — deste lugar incerto
E numa curta sinuosa – dessa poesia torta
Fria e boba, como a chuva fina
Todo mundo corria, uma vida à toa
E de repente, não mais que de repente
Acidente
Então, no canto do meio-fio, havia
Dois corpos estendidos, na rua
Com suas bocas e línguas úmidas para fora
Fazendo espumas
pra Lua