Arquivo para Artes Integradas
Desejo mio
Há duas semanas, eu pensava em fazer algo sobre o que me disseram um dia. Brincar com o que é sério, é mais sério do que se imagina. Um desejo desprovido de qualquer intenção é como um gato a procura um lugar para afiar as presas. Minha pele não é estofado, tão pouco madeira ou cascalho. Então, eu coloquei o desejo no papel. Circulei, dobrei, recordei, voltei, retomei e finalizei um barco, daqueles que quando se dobra errado, vira chapéu de “marcha soldado”. Soltei-o na vala, num dia de chuva fina. Mal dobrara a esquina, sumira. Há quem duvide, há quem acredita que o desejo dera ao barco vida. E pelos bueiros ele ainda transita. Ora mia, ora mio…
Dia de cão
Somos todos em vão
Passageiros na contramão
Correndo para chegar
Ao fim da linha da estação
Sem nenhum trocado
Dinheiro, plástico ou latão
Só o ticket, o vale-refeição na mão
O dia é um daqueles nublados
Ônibus sacudindo, lotado
Horas chove, outras não
Uns molhados, outros segurando no cordão
Momento ingrato, BUSINA!
Cachorro atropelado, no ato
Todo mundo cai por cima
Eu viro enlatado, faleço
Meus órgãos são doados ainda frescos
E o cachorro ressuscitado, como apreço
É adotado por minha mulher e meu irmão
Aqui jaz, Gilberto, carteiro e amigo
Ressuscitado, cachorro, vira-lata e pulguento
Meus ossos são sua guarnição
a queda
“agora que é mais que tarde
é noite e nuvens cobrem
e não há horizonte algum
eu quero que o teto caia
e encubra o corpo
e me quebre a cara
eu quero que o teto caia
e rache o que não presta
não há vôo sem queda.”
Johnny C, dedicado a Walter Franco.
Caquexia
Caquético, caralho,
cadê aquilo que estava aqui?!
Eu finjo que não vejo
Eu vejo o que não sinto
Eu sento no lado esquerdo
Eu erro o nome direito
Banalizo todo o sinal vermelho
Esqueço de pedir primeiro
Meu regime é de cativeiro
Eu minto o tempo inteiro
Caixinha
Meu silêncio guarda o mundo
A bola perdida
Amoras roubadas
Bombinhas estaladas
Piadas mal contadas
Risadas no escuro
Estórias inventadas
Meu silêncio
É a música dentro da caixinha
Esperando que alguém dê corda
Dó
Minha vida em pedacinhos de chuva
Ai que eu caiu, ai que eu quebro
O salto no ralo, o dedo do meio
Mas não sem antes dançar
Sem antes requebrar
Tentando equilibrar
Toda essa vida
Essa fila
Essa linha
Nota Só
Ai que
Dó