Arquivo para Dolores
No dia tal
Me deseje sorte, antes de seguir viagem
Ante que tudo vire sal e saudade
Antes que eu só escute o surdo
E que o tempo nos ensine a conviver com isso
As dores de amores, os assaltos e os surtos
Sansão
Hoje vi a tristeza me afagando o coração
A despeito disso, eu vou passando a mão
Colocando matéria orgânica na fenda da depressão
E o que se vê é um jardim: astromélias floridas
No chão partido do Afeganistão
Esses dias
“Esses dias eu encontrei com um homem sentado que tinha nas mãos um coração.
Eu olhei para ele. E ele sentado, comeu o coração.
Eu, então, perguntei: você gostou, meu amigo? Tem gosto bom?
É amargo. E eu gostei porque é amargo.
E porque era o meu coração.”
Madrugada
Sonho com creme, pedaços de gente ao ponto, à milaneza, ao dente. Acordo suando. Pingos de chuva batem na persiana, refrescando o quarto, o corpo, o cheiro …
Às vezes peno pelo que esqueço. Pedaços espessos fora do refrigerador.
Da observação
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda a frio teu coração alheio
E verás que o que bate no teu peito
Só tu percebes, só tu podes dar jeito
Para a espinha entalada na garganta,
Come-se pão, bebe-se água
Para os sentimentos atravessados no peito
Dá-se um tempo
Desvia-se do vento
Perdoa-se por dentro
Ofício
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
Pior que este inumano existir enlatado
De baixo para cima, de cima para baixo
É a vida sem sina
Sem um sentido
Sem lado
Eu preciso reconstituir meus pedaços
Comprar muitas coisas no supermercado
Preencher o vazio, deste viver engomado
Vozes me dizem: – “ Eh, Tu, aí?!”
E me mandam escrever excrementos
Em papel refinado
A pipa no poste
A vida é um grito
Eu viro, reviro, eu vibro
Às vezes de um sopro
Recrio meu leito, meu peito, meu amo
Mentir é tão louco, tão pouco, tão oco
Às vezes de um soco, eu caio, eu fico torto
Retiro minhas trouxas, meu nome da lista
Eu pago à vista
No caminho para casa, a visto no poste
Uma pipa enrolada
A mercê da própria sorte
Pena que aqui não venta …
Do trem
Eu caio sobre cabides esparramados pelo chão
Os cotovelos doidos, distraídos fazem círculos em vão
Sob o piso, outro piso, pedaços de gente e carvão
Desenho ramos de flores sem cores, com as mãos
É quente, tudo derrete e o que vale um beijo
Troca-se por mangas e laranjas, na estação
Uma doída sinfonia são os barulhos das pedrinhas,
Que absorvem o dia, as misérias do coração
Dos dormentes sobre o concreto, o trepidar abafado
Para os trilhos, o peso do vagão